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Adelino Nascimento e a derrota do Brasil em 1982

Créditos: Acervo CBF
Posted: 10/04/2020 at 08:45   /   by   /   comments (0)

* Colaborou Leandro Paulo Bernardo

“Não quero viver sendo agricultor,
que devo fazer então meu senhor?
Preste atenção para fugir da enxada,
a lei da vida exige uma coisa básica;
O cara nasce pra ser jogador
ou tem o dom para ser cantor
ou estuda para ser doutor!”

Escutei essa embolada numa feira em Quipapá, não vou recordar o ano, mas sei que ela representava bem um ídolo da musica brasileira que infelizmente nos deixou no dia 10 de abril de 2008; Adelino Nascimento. O cantor apaixonado do povão cantou amores ganhos e perdidos, a vida no campo e na boêmia, nas estradas, nos garimpos…como também cantou a maior dor do futebol brasileiro.

Eunocelino Araújo do Nascimento nasceu em Colônia Amélia, distrito de Turiaçu, no Maranhão. Trabalhava na roça com os nove irmãos, mas dizia para todos na região que seria cantor. Começou cantando em sítios e bares da região, sendo conhecido pelo nome artístico de Celi Nascimento. Chegou a trabalhar um período na construção da barragem de Tucuruí, com o objetivo de juntar dinheiro para tentar realizar seu sonho.

Em 1980 toda a sua família se mudou para Maracaçumé, também na região do Gurupi, no Maranhão. Celi passou a compor suas canções e começava também a cantar em circos e clubes.

A primeira grande chance veio quando o seu pai vendeu um terreno em Turiaçu e resolveu apostar na carreira artística do filho. Pagou a gravação de uma “tape” em 1981 e enviou para um empresário em Campinas. O empresário gostou e passou a divulgar o cantor em outras regiões, contudo o material completo para um disco ainda não estava pronto.

Adelino passou a compor mais músicas, especialmente a beira do rio Maracaçumé e nos campos de futebol em torneiros nos sítios. Ele se inspirava nas alegrias ou dores da vida, seja no amor, trabalho e relacionamentos, contudo naquele período nada havia machucado tanto a alma do povo brasileiro do que a eliminação na Copa do Mundo de 1982.

Como ele gostava de futebol (era torcedor do Flamengo) surgiu fácil a inspiração para compor “A Derrota do Brasil” após a eliminação da seleção de Socrátes, Zico e Falcão;

Milhões de brasileiros pelas ruas caminhando muito tristes a pensar e lembrar que na primeira fase o Brasil esteve em primeiro lugar.

O primeiro jogo foi assim preste atenção eu vou contar:

Jogou com a União Soviética o Brasil foi o primeiro a derrotar
Venceu a Escócia
Derrotou Nova Zelândia
Ganhou dos argentinos lá em Barcelona
Perdeu para a Itália
Acabou nossa esperança
Todos os brasileiros revoltados com o técnico da nossa Seleção
dando nome ao goleiro Waldir Peres e rebaixando o goleiro Leão,
Mas que injustiça aconteceu agora
o Brasil perdendo o caminho da vitória.

Era um “lamento” que faltava no repertório para o disco. Somente em 1984 o primeiro disco foi lançado e gravadora optou pelo nome artístico de Adelino Nascimento. A música “A Derrota do Brasil” ficou sendo a faixa 05 daquele disco, cujo maior sucesso foi Garota Proibida.

O disco estourou especialmente na região de Serra Pelada e no Maranhão. O cantor passou a fazer mais shows e conquistou uma legião de fãs no Norte e Nordeste.

Após gravar o segundo disco, que tinha o sucesso Tânia, Adelino foi contratado em 1987 por uma grande gravadora nacional e explodiu sucessos como Menina Faceira, Traga Passarinho e Vou Voltar para São Luís no seu terceiro disco.

Nessa época esse álbum era o terceiro mais caro na lojas de Belém, perdendo apenas para Roberto Carlos e Júlio Iglesias.

As vésperas da Copa da Mundo de 1990 Adelino cantou algo relacionado novamente com o futebol. Pegou uma adaptação, que havia feito com seu irmão Edésio Nascimento, da música Voa Canarinho gravada pelo lateral Júnior, incluiu o vermelho e preto do seu Flamengo e transformou-a em A Taça é Nossa com ritmo de lambada que sacudiu o nordeste e aumentou ainda mais seu carisma e quantidade de shows.

 

Voa canarinho voa
Vai buscar a esperança do Brasil
Voa canarinho voa
Mostra que meu peito é varonil
A esperança é a última que morre
Eu acredito na nova seleção
Eu quero a taça de volta no Brasil
A seleçao Brasileira e campeã
Gigante pela própria natureza
O preto representa uma nação
O vermelho traz um símbolo de guerra
Verde amarelo faz parte da seleçao meu irmão.

Nesse momento Adelino Nascimento atingia seu auge de popularidade e já era um cidadão baiano, goiano, alagoano, pernambucano, manauara, amapaense, cearense…

Infelizmente o cantor, assim como vários jogadores de sucesso, se tornou um alcoólatra. Novos discos e músicas foram diminuindo ao passar dos anos, contudo ele continuava a fazer shows pelo Brasil, arrastando e conquistando o coração do povo do interior e zonas rurais, mesmo em algumas apresentações cantando embriagado ou exaustando por longas viagens e agenda de shows.

Em 1996 foi candidato a prefeito de Maracaçumé (MA), perdeu a eleição e desistiu então da política. Seguiu a carreira de músico e vivendo a boêmia que amava. Bebia muito, especialmente cerveja, até descobrir a cachaça com coca-cola, mistura da qual virou fã, especialmente durante as longas partidas de sinuca com os amigos.

Adelino Nascimento era asmático, não se tratava e detestava ir a consultórios médicos ou hospitais. Passou mal durante um show em Japaratuba – SE e faleceu três dias depois em Aracaju, no dia 10 de junho de 2008.

Alguns parentes de Adelino seguiram na carreira musical, especialmente seu irmão Edésio que faz sucesso no Maranhão. O cantor apaixonado do povão deixou uma legião de fãs por todo o Brasil, principalmente por suas músicas exaltarem com absoluta magia e simplicidade a realidade do trabalhador brasileiro com suas alegrias e frustrações.

Não sei quem foi o Pelé da música Brega, mas o Garrincha, que também amava os passarinhos, com certeza foi Adelino Nascimento… mas ai já seria uma outra História, porém com a mesma trilha sonora e LEMBRANÇAS.

 

Leandro Paulo Bernardo – Cirurgião-Dentista, apaixonado por futebol, literatura e música desde os quatro anos, e com o coração dividido entre o Santa Cruz e a Portuguesa

Foto da capa – Acervo CBF