Pages Menu
Categories Menu
Araquem – Edemil Araquem de Melo

Araquem – Edemil Araquem de Melo



* Colaborou Leandro Paulo Bernardo

“Voar, voar
Subir, subir
Ir por onde for”

Assim inicia-se a bela canção “Sonho de Ícaro”, que ficou conhecida na voz do cantor Byafra, baseada em uma lenda da mitologia grega. O primeiro jogador brasileiro a atuar na Grécia poderia ser associado a Ícaro, mas com uma diferença: tudo foi real.

No dia 7 de julho de 1944 nascia, no Rio de Janeiro, Edemil Araquem de Melo. Para os pesquisadores e amantes do futebol, a história de Araquem é formidável. O pioneirismo desbravador e, concomitantemente, o sucesso em alguns países é raro até mesmo para os atletas da atualidade.

Após passar por todas as categorias de base do Vasco da Gama, ele não conseguia espaço no time principal. Em 1964, recebeu uma proposta diferenciada para o futebol da época: jogar pelo Danubio, do Uruguai. O clube buscava um atacante forte e veloz para atuar com o ídolo charrua Alcides Ghiggia, que havia retornado da Itália.

“Descer até o céu cair
Ou mudar de cor”

Araquem “desceu um pouco no continente” e chegou ao Uruguai, mas não precisou “mudar de cor”, já que o Danubio também é alvinegro e tem um uniforme idêntico ao Vasco, até com a mesma faixa diagonal.

Aos poucos conseguiu ganhar a simpatia dos fãs, com técnica brilhante, raça e gols espetaculares. No Campeonato Uruguaio de 1966, marcou 12 gols e se tornou o primeiro jogador na história do Danubio a ser o artilheiro do torneio. Um desses gols ficou na memória da torcida De La Curva, já que foi contra o Nacional e sem uma das chuteiras.

Em pé: Héctor Modernell, Héctor Pederzoli, Rico, Omar Fernández, Ángel "Pocho" Brunel y Ariel Pintos. Agachados: Alcides Ghiggia, Araquem de Mello (brasileño), Héctor Salvá, Vladas Douksas y Hugo Viña

Em pé: Héctor Modernell, Héctor Pederzoli, Rico, Omar Fernández, Ángel “Pocho” Brunel y Ariel Pintos. Agachados: Alcides Ghiggia, Araquem de Mello (brasileño), Héctor Salvá, Vladas Douksas y Hugo Viña.

Até hoje no Campeonato Uruguaio, somente dois brasileiros conseguiram ser artilheiros: Araquem e Eliomar Marcon (em 2001, pelo Defensor Sporting).

Em 1968, o Huracán, da Argentina organizou um projeto inovador e até sonhador para tentar combater o crescimento dos “clubes pequenos” na época que ameaçavam o posto de sexto clube no país, especialmente Estudiantes, Vélez Sarsfield e Chacarita Juniors.

Então, decidiram comprar o passe de Araquem ao Danúbio por 80 mil dólares – um recorde na década.

“Asas de ilusão
E um sonho audaz
Feito um balão”

Nessa analogia e contexto, Araquem “atravessou o Rio da Prata” e chegou ao clube argentino cujo apelido é “El Globo”, que significa “o balão”. Explica-se: um dos fundadores foi o aviador e engenheiro argentino Jorge Newbury, famoso por ter dirigido um balão chamado El Huracán.

Araquem seria o homem na área a receber os passes do maestro peruano Miguel Loayza. Logo no primeiro ano pelo clube Quemero marcou dez gols em 14 jogos e foi vice-artilheiro daquele campeonato. No ano seguinte, Silva, “o Batuta”, foi o primeiro brasileiro a ser artilheiro do Campeonato Argentino quando defendia o Racing.

Na Argentina, Araquem de Melo aprimorou o futebol de grande força física e velocidade. Tornou -se o maior ídolo do Huracán, depois da saída de Miguel Loayza para o Deportivo Cali.

Apesar de fazer campanhas irregulares tanto no Metropolitano quanto no Nacional, El Globo vinha montando a base da futura equipe campeã em 1973. Com Hector Vieira, Alberto Rendo, Alfio Basile, Carlos Babington e Miguel Ángel Brindisi sobre a batuta de César Luis Menotti.

Huracan 1969 Em pé :Cantú, Vilanoba, Fresneda, Navarro, Dopacio y Chazarreta. Agachados: Hernandorena, Tedesco, Brindisi, Araquem de Melo (careca) Tito Gómez y Giribet.

Huracán em 1969. Em pé :Cantú, Vilanoba, Fresneda, Navarro, Dopacio y Chazarreta. Agachados: Hernandorena, Tedesco, Brindisi, Araquem de Melo (careca) Tito Gómez y Giribet.

Em 1971, sofreu com contusões e se ausentou de vários jogos na temporada, motivo pelo qual o Huracán contratou, por empréstimo ao Flamengo, o atacante Horácio Doval.

Em 1972, recebeu uma proposta irrecusável para jogar no então vice campeão europeu: o Panathinaikos, da Grécia. Deixou o Huracán após 58 jogos e 19 gols.

O clube grego era treinado na época pelo gênio húngaro Ferenc Puskás e tinha vindo ao Uruguai em 1971 jogar contra o Nacional o Mundial Interclubes – na época, um jogo na Europa e outro na América do Sul. Sabendo do bom desempenho de Araquem, decidiu contrata-lo.

“O que faz de mim
Ser o que sou
É gostar de ir
Por onde, ninguém for”

Assim, Araquem chegaria à terra da mitologia. Foi o primeiro brasileiro a vestir a camisa do Panathinaikos, permanece como o brasileiro a marcar mais gols no clube e o primeiro atleta estrangeiro que assinou um contrato com a equipe grega.

Por não possuir regularização na Federação Grega, acabou ficando ausente do elenco campeão nacional de 1972, mas sempre era destaque nos amistosos. Teve uma atuação mágica em um amistoso contra o Manchester United e ganhou o apelido de Demelo da torcida, algo bem parecido com o nome do pai de Ícaro na mitologia: Dédalo.

Alguns meses depois, o clube grego contratou o craque Juan Ramón Verón, “La Bruja”, do Estudiantes da Argentina. Com a regularização dos sulamericanos na federação e a presença do ídolo local Antonis Antoníadis, formou-se um trio ofensivo temido e muito eficaz.

Em novembro de 1972, o Panathinaikos recebeu o Guarani, de Campinas, para um amistoso. O jogo terminou em 1 a 1, com um público de 16 mil espectadores.

Nessa época, as campanhas do Panathinaikos no campeonato grego sempre eram boas, mas por duas temporadas seguidas deixou escapar o título para o eterno rival Olympiakos. A conquista da temporada 1973-74 foi bastante questionada, após um pênalti não marcado pelo juíz em Araquem, no Derby dos eternos inimigos.

Por competições européias, o brasileiro marcou dois gols – um na edição da Copa dos Campeões de 1973 contra o CSKA Sofia e outro pela Copa da UEFA de 1974 contra o OFK Beograd. Teve atuação decisiva em amistosos históricos do clube verde, no empate com o Real Madrid e na vitória contra a Roma.

No dia 6 de setembro de 1973, o Panathinaikos recebeu em partida amistosa outro clube brasileiro: o ABC. Os gregos venceram por 2 a 0, mas houve um fato curioso na partida.

O bicho ofertado pelo clube de Natal era de 10 dólares para cada jogador do time. Entretanto, o atacante Alberi se destacou tanto nesse jogo que recebeu 20 dólares de bicho, por um gol de bicicleta anulado e sendo considerado o melhor jogador em campo.

“Não vou mudar
Do meu país
Nem vestir azul”

Após duas temporadas no Panathinaikos, com 37 jogos e 19 gols, Araquem saiu do clube juntamente com Puskás e Verón. Continuou morando na Grécia, mas “vestiu azul” e jogou uma temporada pelo Atromitos – pequeno clube de Atenas que possui azul no uniforme e na estrela do escudo. Marcou apenas dois gols pelo Atromitos, que por um ponto escapou do rebaixamento. Araquem encerrou a carreira profissional em 1975.

Depois, dedicou-se a alguns projetos particulares. Um desses projetos foi uma grande escolinha que montou com seu irmão Arnout de Melo em Caracas, na Venezuela.

Arnout fez uma carreira de sucesso no Deportivo Itália, da Venezuela, e continuou morando por lá. A escolinha tinha até uma parceria com a Universidade Central da Venezuela.

“Ir até que um dia
Chegue enfim
Em que o sol derreta
A cera até o fim”.

Na tarde quente do dia 17 de outubro de 2001, em Caracas, após passar por problemas pessoais, Araquém de Melo cometeu suicídio.

No dia 24 de outubro, no jogo do Atromitos contra o Ethnikos Piraeus, houve um minuto de silêncio em homenagem a ele.

Durante a Copa América de 2011, no intervalo das transmissões da TV Pública da Argentina, havia uma campanha contra a xenofobia; “Alentá, siempre a favor!” (Torça sempre a favor), na qual usavam os nomes de grandes jogadores sulamericanos que foram ídolos dos maiores clubes da Argentina. Somente três brasileiros foram citados: Silva, Dorval (que jogaram no Racing) e Araquem de Melo.

* Leandro Paulo Bernardo – Cirurgião-Dentista, apaixonado por futebol, literatura e música desde os quatro anos, e com o coração dividido entre o Santa Cruz e a Portuguesa